11 dias na Etiópia: Lição de vida e de esporte

Corredor chapecoense passa 11 dias treinado e participa da prova mais tradicional do continente africano, berço dos principais campeões mundiais. Lição de vida, de alegria e dedicação ao esporte voltam na bagagem de Genir dos Santos

Bia Piva

bia@diariodoiguacu.com.br

Chapecó


Foram 11 dias intensos. Do choque cultural com a pobreza e as dificuldades vividas pelos etíopes, até a lição de vida e dedicação ao esporte.


Assim foram os 11 dias do corredor chapecoense Genir Rodrigues dos Santos que em novembro viajou para a Etiópia onde participou da corrida mais tradicional do continente africano, a Great Ethiopian Run, que é berço de vários campeões mundiais de corridas e maratonas.

 

Por que ir para Etiópia?

 

O atleta amador de corridas e membro da Passo a Passo Assessoria de Corridas conta que decidiu ir para a Etiópia para conhecer como era o treinamento dos melhores atletas do mundo.


“Eu tinha essas inquietações de corrida. Treino há 12 anos e eu sentia que precisava aprender algo novo. E o negócio era ir buscar na fonte. E onde é a fonte de conhecimento das corridas de longas distâncias? Quênia ou Etiópia. Eu, particularmente, me identifico mais com os corredores etíopes e surgiu a oportunidade de ir para lá”, disse.


Santos explica que a chance veio neste ano. “O Danilo Balu, que é um nutricionista de São Paulo, está escrevendo um livro sobre o assunto e também tinha essas inquietações sobre treinos e o desempenho dos etíopes. Fiz contato com ele que me passou as datas e acertamos tudo”, contou.

 

Treino nas montanhas

 

Foram 11 dias na capital da Etiópia, treinando junto com os atletas locais. A comunicação foi apenas um dos desafios superados, usando um pouco do inglês e um pouco da linguagem universal do esporte, a barreira rapidamente foi superada.


Genir conta que em todo período que esteve lá, apenas no dia da prova ele correu em uma pista de asfalto. Toda a preparação foi feita com treinamentos na simplicidade das estradas de chão, na altitude das montanhas que cortavam as comunidades e vilarejos locais. Foi assim que ele conheceu de perto as dificuldades do povo africano.


“A forma que eles treinam é completamente fora do nosso entendimento. São condições sub-humanas e tudo o que a gente entende de fisiologia cai por terra lá”, conta o corredor, que conversando com os atletas e treinadores locais, soube que a rotina e frequência do treinamento dos atletas amadores depende se eles tinham ou não comida em casa para se alimentar antes dos treinamentos.

 

Correr por uma vida melhor

 

Se a rotina de preparação não tem tanta diferença em relação a outros lugares, Genir descobriu que é na dedicação e em dar o sangue a cada dia de corrida que está o grande trunfo dos corredores africanos.


“A corrida é uma das únicas formas que eles têm para fugir da miséria. É o equivalente ao futebol no Brasil, que para o moleque, pro adolescente, é sonho se tornar profissional e buscar uma vida melhor”, explica.


Justamente por isso que a Great Ethiopian Run é tão procurada. A maior corrida do continente africano reuniu, em 2018, 44 mil inscritos de vários países do mundo.


“Um monte de olheiros e manangers acompanham as provas lá buscando descobrir novos atletas. Essa é a grande chance deles, porque não conseguem sair de lá (Etiópia) sozinhos, precisa um olheiro ir até lá e oferecer as oportunidades”, conta o chapecoense, lembrando que nesta corrida, primeiro os atletas da categoria A (profissionais) largam e fazem o percurso de 15km. Só depois que eles terminam a prova é que os demais grupos podem correr.

 

 

Largada no grupo B e ser o primeiro estrangeiro a chegar

 

“A parte da prova, eu não sofri tanto. Fui para curtir. Eu estava tão satisfeito com tudo o que eu aprendi nos treinos que eu decidi que ia me divertir, aproveitar a prova. Não ia me preocupar com resultado, com marca com nada”, conta o corredor.


Apesar disso, o bom desempenho no treinamento rendeu uma indicação a Genir. “Fui o primeiro estrangeiro a aguentar um treino de 1h20 a quase três mil metros de altitude. Nesse dia, o treinador falou com o organizador da Run África e indicou que eu ficasse no pelotão B”, lembra.


Correndo no segundo melhor grupo da prova, o chapecoense conseguiu chegar entre os 30 melhores, sendo o primeiro estrangeiro a finalizar a prova no grupo B. “Os 29 primeiros foram etíopes”, destaca.


 

Corrida está no sangue

 

Segundo Santos, o que mais o impressionou, além das dificuldades vividas pelo povo etíope, é que eles têm a corrida no sangue. “Aqui a gente inventa desculpas para não treinar. Lá não tem essa. A hora que o treinador apita eles entregam a vida. O pessoal brinca que eles correm dos leões. Não! Eles são os leões. Treinar da nas condições que eles treinam, da forma que eles treinam, me chamou muito a atenção”, enfatiza.


A resiliência do povo africano também ficará na memória do corredor. Mesmo com todas as dificuldades, muitos profissionais viajam o mundo para correr, em busca de prêmios e ter uma vida melhor, mas retornam para suas casas, suas cidades, mesmo com toda a pobreza e dificuldade.


“Estávamos treinando no parque uns dias depois da maratona de Nova York em que um etíope ganhou. Naquele dia ele estava lá treinando, passou por nós. Os campeões olímpicos também treinavam com a gente na montanha. Eles são simples, treinando junto com todos, amadores ou não”, lembra.

 

Com a mala cheia de tênis e o coração de alegria

 

Antes de embarcar rumo a Adis Abeba, capital da Etiópia, Genir conta que mobilizou seus colegas e alunos de corrida para que doassem seus pares de tênis usados para fazer uma doação aos corredores etíopes.


Um gesto simples, mas simbólico, motivado pela dificuldade e da forma precária que muitos atletas amadores fazem seus treinamentos lá. “Fui com uma mala cheia só de tênis. Foram 20 pares. No dia da entrega foi uma felicidade. Parecia que eles estavam ganhando um prêmio, realizando o sonho de uma prova”, lembra.


E não eram apenas os atletas amadores que não tinham sequer um tênis adequado para correr. O treinador também usava um par de tênis velho e bastante gasto, mostrando a parte de cima dos pés. A situação chamou a atenção do corredor chapecoense, que logo tirou os próprios tênis de corrida e entregou ao treinador do grupo. “Voltei descalço”, brinca.



A medalha da prova traz um pouco da história do país, berço dos principais corredores do mundo. Foto: Bia Piva



Genir passou 11 dias treinando junto aos corredores etíopes e participou da Great Ethiopian Run. Foto: Arquivo Pessoal

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