Comprometimento regional para crescer ainda mais

Série de reportagens apresenta bons exemplos de empreendedores e inovação. Nesta edição, começamos com o empresário Alceu Lorenzon, de Xanxerê

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Guto Kuerten
Especial /Chapecó

Quem tem hoje 20 anos suportou a vida inteira a mesma estrada de acesso à região Oeste: a BR-282 e seus 684 quilômetros – com trechos onde os buracos devoram parte da produção e provocando prejuízos enormes. As duas ferrovias – Norte-Sul e Ferrovia do Frango –, há anos prometidas, continuam no papel e cada vez mais distantes de se tornarem realidade. 

 

As péssimas condições para escoar a produção e a distância dos centros consumidores poderiam resultar em empresas quebradas, mas a situação do Oeste catarinense é completamente inversa. A região é a principal produtora dos três itens mais exportados de Santa Catarina no ano passado: carne de frango – US$ 1,36 bilhão ou 17,8% da balança comercial –, soja – US$ 594 milhões ou 7,8% da balança comercial) – e carne suína – US$ 520 milhões ou 6,8% da balança comercial. 

 

Concentra, atualmente, 79% do rebanho de frangos e 72% de suínos. Exportações para as nações mais desenvolvidas do mundo – como Estados Unidos, Europa, China e Japão – mesmo com as dificuldades atuais. Possui 26 mil empresas ativas – mais que as regiões Sul e Serrana – e número similar ao Norte e à Grande Florianópolis – com 27 mil.


O que se perde em competitividade – pela falta de infraestrutura e apoio – é compensado com qualidade da mão de obra, comprometimento, inovação, criatividade e, principalmente, na valorização da autonomia e do ganho de conhecimento.


A região cristaliza uma das principais características do DNA catarinense: a vontade de empreender. E essa vontade de fazer, desenvolver e evoluir tem levado a um crescimento econômico constante das cidades e da região como um todo.

 

Celeiro de conhecimentos e diversificação


Empreendedores visionários geram empregos e, principalmente, incentivam a base de uma economia sólida para profissionais que buscam aprimoramento. Aumentam a cadeia de serviços, em especial, com uma das principais características dos negócios do Oeste: o cooperativismo.

“Hoje, essa ideia se mantém atual e oferece ao pequeno produtor rural a competitividade que não seria possível se eles não estivessem estruturados através de um sistema cooperativo”, explica o vice-presidente da Cooperativa Central Aurora Alimentos, Neivor Canton. A proposta, no entanto, não se resume ao setor agropecuário. Há exemplos no setor financeiro e no setor de transportes – apenas para citar alguns exemplos.

 

O crescimento na educação superior é outro fator importante. Desperta um movimento de sinergia nos empresários locais com as associações comerciais, instituições de ensino com os governos municipais e estaduais.

“De 2010 a 2014, Chapecó cresceu mais de 280% em contratação de doutores. Em termos de mestrado, mais de 105%. Indicadores acima da média dos municípios do estado com uma relação importante com a mudança na matriz produtiva e boas perspectivas para o futuro”, explica o vice-reitor da Unochapecó, o economista Márcio Paixão.

 

Essa peça importante do quebra-cabeça do desenvolvimento valoriza o acúmulo do conhecimento por meio de cursos – técnicos e de especialização – iniciados, em especial, pelas necessidades de empresas e fábricas. Aprimoramento de estudo que não se limita aos empregados nas indústrias e se expandiu aos pequenos agricultores em aplicações diárias na pecuária – com um ganho significativo na produção.

 

Cases de sucesso


A propriedade de agronegócio Specht é um exemplo. Trabalha com 1,2 mil cabeças de suínos na linha São João, em São Carlos – cidade com 10,2 mil habitantes. A inovação com um sistema computadorizado de alimentação garantiu ganho imediato. “A evolução foi muito grande, principalmente com a genética e alimentação. Fomos agraciados com um treinamento de ponta que nos fez evoluir. Não ficamos estagnados no tempo”, ressalta o proprietário Rafael Specht.

 

Nos últimos anos, uma das tendências é de empresas que não buscam tecnologia e, principalmente, inovações. Assim, migram para os grandes centros.

“No interior, se encontra a melhor mão de obra e o ganho na qualidade de vida. Empresários estagnados não vingam e buscam cidades inchadas, com um número ainda maior de concorrentes e acabam falindo. Os que ficam estão ainda mais competitivos e com uma evolução acima da média estadual”, analisa Waldemar Schmitz, vice-presidente regional para o Oeste da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).

 

A empresa moveleira Sollos, de Princesa – cidade do Extremo Oeste com pouco mais de 2,7 mil habitantes –, é um exemplo de sucesso fora do agronegócio. Têm pontos de venda na Europa. Quando clientes europeus desejam conhecer a fábrica, para que não tenham uma visão distorcida da região, os diretores da companhia adotaram uma alternativa. “Para eles não se assustarem com a nossa rodovia, preferimos trazê-los de helicóptero do aeroporto de Florianópolis. Chega a ser ridículo. Mas não temos outra opção”, admite o empresário e designer Jader Almeida.

 

Números do Grande Oeste


Conta com 118 cidades – 40% do total de SC

São 1.255.886 habitantes

Concentra 18,67% da população catarinense

Tem hoje mais de 26 mil empresas ativas

Responsável por 79% do rebanho de frangos e 72% de suínos

Principal produtor dos três itens mais exportados por SC: carne de frango, soja e carne suína

 

Empresa nasce de um sonho 


O empresário Alceu Lorenzon trabalhava com a construção civil. Construiu os maiores prédios de Xanxerê, no Oeste catarinense, mas, mesmo assim, ainda não se sentia realizado. Desse desejo de construir também um futuro melhor, surgiu a ideia de abrir a Alcaplas – uma empresa de reciclagem de plástico. 

 

Lorezon lembra com orgulho do árduo início com cinco funcionários e a reciclagem de 10 a 20 toneladas num terreno de chão batido – material que iria para lixões e aterros, até então considerado lixo sem valor.


Hoje, essa aspiração se concretizou em um parque industrial com área aproximada de 15 mil metros quadrados, mais de 220 colaboradores e que, atualmente, é líder na região Sul na recuperação de plásticos com uma atuação social justa, uma economia viável e ambientalmente correta.


 A produção mundial de resinas termoplásticas é de cerca de 260 milhões de toneladas. A América Latina representa 6,7% do total – o Brasil, 6,3% desse total. Na empresa voltada à transformação de aparas plásticas em polímeros, são reciclados de 500 a 600 toneladas mês.



“O empresário do setor de reciclagem é discriminado e não recebe a devida valorização. Faz uma importante prestação de serviço na preservação do meio ambiente e sofre com os tributos”, admite Lorenzon. “Mesmo com toda esta dificuldade, a satisfação com a limpeza do meio ambiente e com a geração de emprego é enorme”, acrescenta.

 

Abrangência nacional


O setor de transformados plásticos reúne empresas distribuídas em todo o Brasil. São 326.234 empregos, 11.559 empresas e um faturamento de R$ 62,2 bilhões com uma produção física de 6,59 milhões de toneladas. Santa Catarina está na segunda colocação na geração de empregos no setor, com 38.127 trabalhadores – 11,7% do total. Com 964 empresas (8,3%), o Estado ocupa a quarta colocação no país.


Os produtos da Alcaplas saem de Xanxerê para todo território brasileiro, são utilizados pelas indústrias automotiva, moveleira, de embalagens de plástico, brinquedos, utilidades domésticas e também construção civil. Cada peça tem a segurança garantida por um processo de rastreabilidade do destino dos materiais plásticos dos fornecedores.

 

De olho no meio ambiente


A proposta de sustentabilidade não está apenas no conceito da empresa. É transformada em atitudes – como o uso de água em circuito fechado. Na fábrica, toda água utilizada no processo de recuperação do plástico passa por uma estação de tratamento de afluentes com decantadores, tanques de flotação, lagoas de polimento e filtros, biodigestores e filtro biológico para depois voltar a ser reutilizada.


Para incentivar o setor, tramita na Assembleia Legislativa dois projetos de lei (PL 238/11 e PL 241/11) que buscam incentivar a reciclagem de plástico. Um busca regulamentar a utilização de sacolas plásticas recicláveis e reutilizáveis em supermercados e órgãos públicos em Santa Catarina.


O outro permite que indústrias que usam uma quantidade mínima de material reciclado na fabricação de seus produtos recebam incentivos fiscais pela prática que ajuda a preservar o meio ambiente.

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