“Eu sou soropositivo, mas calma, sou indetectável”

Série de reportagens do Diário do Iguaçu traz hoje depoimento de rapaz, 22 anos, soropositivo há cerca de um ano e dois meses

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“Eu descobri a doença por acaso. Há um ano e dois meses acabei ficando doente frequentemente, tendo várias vezes gripe, suores à noite e outros sintomas que eu não sabia o que era. Em um desses sintomas, acabei pegando sarna humana. Foi aí que tudo mudou.

Como eu tinha um relacionamento há três meses na época, me deu um gelo. Me vieram muitos questionamentos na cabeça. Os principais deles eram: “Por que isso aconteceu comigo?” e “O que eu faço agora?”. A minha única certeza é que eu teria que tentar consertar isso de alguma forma. 

A sensação que eu tive era de estar em um quarto fechado sem nada dentro. Apenas eu e as paredes. Foi um vazio enorme. Eu tive muito medo e culpa. Culpa por ter pego o vírus, por não ter cuidado bem de mim e mais culpa ainda por ter transmitido a doença a alguém que não tinha nada a ver com isso. 

O medo de contar aos pais 

Pra ser sincero, os meus pais até o momento não sabem que eu tenho a doença. Quando eu visitei eles em abril deste ano eu já estava tomando o medicamento e já estava com a carga viral indetectável. Eles me fizeram muitas perguntas: “O que é esse remédio que você está tomando?”, “Você está doente?”, “Por que você está tomando esses remédios todos os dias?”, “Você vai parar de tomar esses remédios um dia?”.

E eu fiquei dúvida se contava ou não, pois já foi difícil eu conseguir contar para os meus pais que sou homossexual. Eles aceitaram. Porém, foi difícil para mim. Então eu pensei e não quis deixar eles preocupados comigo e com mais dúvidas na cabeça. Muitas coisas que eu passei aqui na cidade eles não sabem.

Como eu assumi a sociedade que sou soropositivo 

Logo depois da Páscoa, quando eu voltei casa dos meus pais, decidi assumir a doença publicamente. Decidi expor a minha sorologia porque logo após eu ter terminado o meu último relacionamento eu estava ficando com algumas pessoas e eu tinha aquela insegurança em dizer “eu sou soropositivo, mas calma, sou indetectável”. 

Em uma dessas inseguranças, uma pessoa com quem eu estava me relacionado e já havia tido relações sexuais com proteção descobriu que eu sou soropositivo. Eu tinha tirado uma foto de um exame e enviado para ele. Como ele é técnico em enfermagem, ele identificou para o que servia e me perguntou se eu sou soropositivo. Eu respondi que sim e que estava em tratamento.

A partir disso foi um caos. Eu pensei que ele fosse a pessoa certa pra mim e já estava gostando dele, mas ele foi se afastando cada vez mais. Então resolvi contar para a sociedade que sou soropositivo e que sou indetectável. E por incrível que pareça o meu trabalho melhorou. As pessoas nunca deixaram de me tratar do jeito que sempre me trataram. 

Por mais que o preconceito ainda exista, isso fez com que eu conhecesse melhor as pessoas. Algumas pessoas se afastaram e outras se aproximaram. E aí eu pensei: poxa, por uma simples doença você consegue selecionar quem vai permanecer na sua vida por um bom tempo e quem está de passagem. 

O conselho que eu dou aos leitores do Diário do Iguaçu é: façam o teste rápido para saberem se vocês tem a doença ou não. Se o teste der positivo, se trate e tente não espalhar o vírus ainda mais. Se você não tem, ótimo, mas use camisinha e pesquise sobre o assunto. E se você que está lendo o jornal hoje tem essa doença, não se sinta envergonhado. Se sinta honrado por estar vivo até hoje, porque antigamente tudo era bem mais difícil. E, por favor, não pare de se tratar. Vai que uma hora dessas achem a cura e a gente saia dessa?!” 


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