Memórias perdidas e o passado no presente de uma pessoa

Há 17 anos com Alzheimer, Eledi Segat de 94 anos tem uma saúde de ferro e continua dando alegria para a família

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Camila Silveira
camila@diariodoiguacu.com.br

Mãozinhas inquietas, precisa arrumar tudo, do jeitinho dela. É aquela mesma mão que tanto trabalhou no comércio a vida inteira, que fazia todos os sinais durante a missa da igreja, que tanto ensinou outros idosos a aprenderem a escrever.

Essa mão foi capaz de cuidar de 12 filhos, que deu tanto amor e carinho, já não reconhece mais eles. Eledi Segat Brustolin, 94 anos, mãozinhas inquietas. Àquelas que agora precisam de cuidado. Mulher de garra, bondade e muita fé quem tanto cuidou de seus filhos, agora é cuidada com o mesmo carinho por eles.

Há 17 anos, Eledi sofre do mal de Alzheimer, que é uma doença neurodegenerativa que provoca a diminuição das funções cognitivas. A mulher que fazia cálculos difíceis, agora não se lembra do que aconteceu no dia a dia. Isso fere principalmente os sentimentos das filhas, que sentem falta de ver aquela letrinha bonita, os bons bate-papos e apresentar os novos membros da família para que ela saiba que tem netos e bisnetos, ou que ao menos lembrasse de cada um dos filhos.

A história de dona Eledi foi contada pelas filhas Cleonice Brustolin Mohr e Vani Brustolin, que revezam as noites para os cuidados com a mãe. Durante o dia, o cuidador, que está há um tempo na família, Roberto Segat, cuida de dona Eledi, assim como cuidou do marido dela, Dionísio Antônio Brustolin, antes de morrer. Agora, Roberto ajuda a família a cuidar Eledi.

A casa foi transformada em um pequeno prédio, uma mora em cima outra mora embaixo e a mãe, mora no meio com a filha Rita de Fátima Brustolin, deficiente auditiva e que também requer certos cuidados das irmãs. O serviço ainda é dividido com outra irmã, a Ana Lúcia Brustolin Baldo, que mora em São Lourenço do Oeste, e que nos fins de semanas, vem fazer seu plantão.

Mas a união da família não para por aí, os demais filhos vêm visitar a mãe sempre e ajudam com as despesas financeiras. Essa união, foi ensinada pela mãe, do sorriso gentil e de mãozinhas inquietas, a mesma que hoje balança suas bonequinhas, que ela chama de seus bebês.

Nascida de Marau, no Rio Grande do Sul, em 1949, Eledi e o marido foram morar no interior de Caxambu do Sul. Dos 17 anos com a doença, há mais ou menos oito anos, que ela perdeu completamente sua memória, nem os últimos dias de seu marido ela lembra.

“Ela continua sendo nossa mãe, com os cuidados de um bebê”, diz Vani, filha de dona Eledi.  “Os riscos são maiores. Uma criança é fácil de distrair com um brinquedo, mas o idoso não. Então precisamos ter muito cuidado. Porque um adulto é mais forte que um bebê. Continuamos tendo todo o cuidado”, finaliza Vani.

“Para nós o mais importante é a figura dela estar aqui. Ela é uma companheira, adora música. Tem preferência pelas italianas”, completa Cleonice, filha da Eledir.

O mal de Alzheimer

Não existe uma forma de fugir ou evitar o Alzheimer, mas, sim de torná-la menos agressivo. O tratamento é feito apenas para conter os sintomas e se bem tratado, a família consegue prolongar a vida do doente com saúde e sem muito sofrimento.

O estágio inicial do Alzheimer é o que todos conhecem: perda de memória recente. A mesma pergunta começa ser feita diversas vezes, começam as dificuldades em acompanhar conversas.

Alessandro Verffel é o médico geriatra que atua na Cidade do Idoso de Chapecó – programa gerenciado pela prefeitura da cidade -, também é presidente da Associação Municipal de Alzheimer e Demências (Amad), lugar onde familiares e cuidadores de portadores de Alzheimer frequentam para buscar conhecimentos sobre a doença e compartilhar o que aprenderam.


Foto: Camila Silveira/Diário do Iguaçu

O começo da doença

Alessandro contou que é fácil identificar o estágio inicial de uma pessoa que será diagnosticada com Alzheimer. “Ela recebe o pedido de alguma coisa, logo em seguida esquece. Se alguém deixa um recado, ela esquece com facilidade. Mas junto a isso, outras funções (ações e raciocínios) intelectuais vão ficando comprometidas”.

Escova de dentes ou roupa íntima começam a aparecer na geladeira, pois, é muito normal também que a pessoa que será diagnosticada comece a guardar objetos em lugares inusitados. “Ela não consegue mais achar os objetos pessoais como carteira, chave. Perde dinheiro e desconfia que alguém esteja levando dinheiro dela. E não é ela que vai perceber estes sintomas e sim seus familiares.”, ressalta o médico Alessandro.

Começar os tratamentos

Após perceber esses sintomas, a pessoa deve consultar um médico. Uma das opções é o geriatria. Há uma certa urgência acompanhamento com um geriatra ou um neurologista. “O diagnóstico é baseado nos sintomas. Os exames são feitos para descartar outros problemas de saúde que poderiam causar essas perdas neurológicas”.

Em Chapecó, o tratamento é feito pelo SUS, após ser diagnosticado, o paciente pode ser acompanhado pelo fisioterapeuta e um médico especialista. “Hoje, não temos um centro específico para trabalhar todos os profissionais juntos. O que o paciente vai conseguir é um fisioterapeuta, um médico e o educador físico. Mas, cada um no seu lugar, não existe um centro para que todos possam fazer um trabalho articulado no começo. E nisso ainda precisamos evoluir”, conta o médico Alessandro.

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Os estágios do Azheimer

O médico Alessandro explica que são três, os estágios do Alzheimer sendo o leve com mudanças de comportamento, moderado que vai fazer a pessoa ter mais perdas de funções intelectuais e atividades da vida diária.

O estado terminal é o último que deixa a pessoa acamada, não permitindo que a pessoa se alimente direito, faça sua própria higiene e fazendo-a ficar mais dependente. No estágio final, começam aparecer infecções respiratórias e urinárias e a pessoa começa a ficar desnutrida, pois, não consegue se alimentar direito, Muitas vezes é necessário até o uso de sonda para se alimentar.

Prevenção

As formas de prevenir o Alzheimer são as mesmas de doenças cardiovasculares que são o controle da alimentação e exercícios físico, monitoração de colesterol e triglicerídeo. Segundo o médico, pessoas que portam essas doenças tem mais chances de ter Alzheimer. Mas, há algo a mais que ajuda a prevenir, que é treinar a mente. “Atividades artesanais aprendendo uma nova língua, continuar estudando pode prevenir, não quer dizer que vai, mas há uma grande chance. Mesmo que a pessoa tenha essa doença, ela poderá retardar. Se estimular o cérebro e criar uma “reserva intelectual” o processo é retardado em até 10 ou 15 anos”, conta Verffel.

Só lembra de uma etapa da vida

Alessandro Verffel afirma que quando o paciente só lembra de uma etapa da vida, é porque a memória recente está muito prejudicada e a memória antiga está muito viva e quanto mais passar a doença, mais memórias vão surgir. “Por isso do estágio moderado a grave, o paciente começa ter algumas alucinações, pois, começa vivenciar muito o passado. Ver os filhos pequenos, se era do campo e agora mora na cidade, ele começa a ver animais e a casa antiga.”, contam.

A Associação Municipal de Alzheimer e outras Demências (Amad) é frequentada por voluntários que se reúnem uma vez por mês no sábado, no 4° andar da secretaria municipal de Saúde de Chapecó, na Arena Condá.

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Neste local vão familiares e cuidadores trocar informações e experiências. “A pessoa portadora de Alzheimer, traz um desgaste muito grande para a família e muitas vezes a família fica muito desorganizada e esse grupo serve como suporte.”, conta o médico Alessandro Verffel.

Para participar da associação, basta ir nos encontros. Profissionais da saúde dão dicas e os membros compartilham experiências para colocar em prática em casa.

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