Na rua eu não tenho coragem de andar com os meus filhos, tamanha a barbaridade que eu vejo, afirma médico

Diretor técnico da Unimed de Chapecó, médico Mário Gotto, contou sobre a rotina hospitalar desde o início da pandemia e alerta. “Se eu tivesse 50 leitos a mais do que temos hoje, eu ainda não ficaria tranquilo nesse ritmo que estamos da doença”

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Em um depoimento de quem vive o dia a dia do combate ao coronavírus, feito durante a coletiva de imprensa realizada na manhã desta quarta-feira (29) em Chapecó, o médico e Diretor Técnico da Unimed de Chapecó, Mário Gotto, falou sobre como tem sido os dias de enfrentamento à pandemia para os profissionais de saúde. Ele reforçou que muito mais do que a cobrança por respiradores, leitos de UTI, o que realmente é preciso é a conscientização das pessoas. E é isso justamente o que mais tem faltado em Chapecó.


“Se espera muito das autoridades, mas eu entendo que como cidadão nós podemos contribuir muito mais, entregar mais. Vocês precisam levar isso a sério”, lembrou.

Para quem vê de perto, diariamente, a dor das famílias e a luta de pacientes, a gravidade da situação é cada dia mais evidente.


“Nem sempre são idosos com comorbidades. Inexplicavelmente perdemos pessoas jovens. Tivemos um rapaz de 18 anos do Mato Grosso com Covid, que internou aqui receber melhor atendimento, e a mãe acabou levando o corpo dele de volta para casa. Se eu tivesse 50 leitos a mais do que temos hoje, eu ainda não ficaria tranquilo nesse ritmo que estamos da doença”, alertou. “Isso depende de cada um de nós. Não é mais fácil tirarmos o espinho, do que só ficarmos tomando remédio para a dor?”, questionou.

 

Jovens, festas e o descumprimento do isolamento

 

“Sinceramente, eu tenho mais tranquilidade de andar dentro do hospital do que na rua. Na rua eu não tenho coragem de andar com os meus filhos, tamanha a barbaridade que eu vejo”, revelou o médico, se referindo à falta de consciência de muitas pessoas, que simplesmente ignoram os apelos por medidas de isolamento e sequer usam a máscara.


As festas clandestinas e o deboche às autoridades também foram citados pelo médico, que foi enfático ao dizer. “Se você jovem tem coronavírus, sai na rua e passa o vírus para uma idosa e ela morre, no meu entendimento você matou aquela pessoa. Se não sabia que tem a doença, eu te perdoo. Mas se sabia e ainda assim fez, para mim, isso é o mesmo que dar um tiro nela. É algo forte de se dizer? Mas esse é meu entendimento e as pessoas precisam compreender que essa doença mata”, enfatizou.

 

UTI não se faz só com respiradores

 

A vinda de mais respiradores e a abertura de leitos de UTI pode causar uma falsa sensação de segurança na população. Mas o médico lembrou que no início da pandemia a grande dificuldade era conseguir Equipamentos de Proteção Individual, depois passaram a ser os respiradores, e agora isso está, de certa forma, solucionado. “Veio a segunda crise que são os medicamentos, que há 50 dias vemos o prefeito trabalhando. E a dificuldade é a falta no mundo e isso compromete nossa assistência. É você ir para a guerra sem munição”, disse.


Ele lembrou que os equipamentos são importantes, sim, mas não é só disso que vive uma UTI. “Um respirador sem o medicamento e sem o profissional, fica muito complicado atendermos os pacientes”, enfatizou.

 

UTI: de um paciente para 6 em menos de 12 horas

 

Sobre o momento grave que vivemos, considerado o pior da pandemia até agora, o médico citou que nesta segunda-feira (26), a Unimed começou o dia com uma pessoa internada com Covid em leito de UTI. “E para minha surpresa, segunda na noite já estávamos com 6 pacientes”, relatou. E os períodos de internação são, em média, de 12 a 15 dias, mas houve casos de mais de 60 dias.


Ele lembrou que o Hospital Regional do Oeste já está no limite e a Unimed também se aproxima do limite. “Há solicitações de todo o estado por vagas. São casos tão graves que muitos nem tem condições para o transporte”, pontuou. E não descarta que possamos viver uma situação semelhante à vivida na Itália, onde os médicos precisavam escolher quem seria entubado. “Estamos perto disso, sim. Podemos correr esse risco, sim”.

 

Perto do limite

 

“Escolheram que o limite dos hospitais são os respiradores, como a coisa mais importante a se ter, mas não são. Se eu receber 30 respiradores hoje, quem vai colocar esses pacientes? São casos complexos, difíceis. A maioria dos profissionais não sabem lidar com o respirador, preciso de gente com experiência, tanto técnicos, como enfermeiros e outros profissionais. A questão do recurso humano é fundamental, mas é limitado. E não só em Chapecó, no Brasil todo.

 

Cansaço e preocupação com as equipes

 

“Os médicos dizem que está ficando difícil, muitas pessoas, equipes cansadas, fadiga. Desde março os profissionais estão usando 12 horas uma máscara que é dez vezes pior àquela que vocês usam. E como motivar essa equipe? A única forma é fazendo o número diminuir”.


Ele lembra que a doença é nova e um paciente de Covid dá muito mais trabalho que em uma UTI normal. “Quando você for a um pronto socorro, vou pedir paciência com os médicos, enfermeiros, eles estão no limite. Falhas acontecem, o ser humano falha, mas existe vontade maior que é fazer o bem para todos. Existe todo o esforço com intuito de acertar ao máximo, mas tem coisa que foge ao controle, fugiu no mundo e não é surpresa que poderíamos passar por esse momento que estamos passando”, finalizou.


“Acho que vai piorar ainda mais se continuarmos nesse ritmo. Na Itália tiveram que escolher quem ia para o tubo e quem não ia. Temos responsabilidade sobre todas as vidas. Esse é o tamanho do desafio das equipes da saúde”, disse.

 

 

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