“Nos excluíam como eram excluídos no passado os leprosos”

Homem, 55 anos, soropositivo há cerca de 30 anos

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“Esta carta talvez não tenha nenhum sentido se não for lida com olhos de quem está realmente me vendo. Há aproximadamente 30 anos me descobri soropositivo. Bom, não preciso nem dizer que a “doença maldita” havia fincado o pé abruptamente na minha porta de forma vil e sem aviso prévio. 

Há quem diga que isso tudo poderia ser evitado e eu reforço: sim, poderia. No entanto, eu faço parte da maioria dos seres humanos que, desinformados ou não, acreditam que em suas casas só entram quem é convidado. Mas descobri que não é assim que a banda toca. Entra quem quer independentemente de deixar ou não. E foi assim que eu me senti: violado. Pois a doença partiu de um macaco na África para pousar na minha sala de estar sem nenhum aviso prévio.

Na ocasião eu tinha um parceiro. Ele trabalhava em um dos maiores hospitais de uma grande cidade e, através de uma doação de sangue, se descobriu soropositivo. Consequentemente, eu estava condenado. Meus exames demoraram meses para serem feitos porque meu parceiro tentava a todo instante o suicídio. Seu intuito era se jogar embaixo de um ônibus ou em cima de um viaduto. Isso fez com que meu tempo fosse dedicado quase que exclusivamente para protege-lo.

O medo 

Depois de descobrir a doença eu passei a ter insônia. Foram 12 longos anos sem conseguir dormir direito. Eu sempre tomava banho e me perfumava. Procurava dormir de camiseta e bermuda, pois caso eu morresse não seria jogado pelado dentro daqueles sacos pretos que as pessoas eram jogadas. Sim, porque muitos foram os velórios que participei em que por se tratar de uma doença ainda desconhecida os defuntos eram isolados e as pessoas não se aproximavam nem do caixão. Eu pensava que quando acontecesse comigo pelo menos eu não estaria pelado dentro daquele saco frio e escuro.

Naquela época, a sociedade se mostrava perplexa diante desta peste que se disseminava com alta letalidade, causando pânico e medo. Era a doença contagiosa, incurável, mortal, provocada pelo castigo divino, como insistia a igreja. Era a ameaça à família, que passou a evitar o portador do vírus. Era como se nós não fossemos humanos. Nos excluíam como eram excluídos no passado os leprosos.

O tratamento

Era inevitável a leitura sobre o tema. A minha única orientação eram os noticiários, que publicavam a descoberta de um atenuante à doença: o milagroso ou lazarento AZT. A sigla por si só já era tida como um veneno, que abriria caminho para que o portador do vírus exteriorizasse em seus traços físicos ser portador. A opção era tomar para tentar prolongar a vida ou morrer a qualquer instante. Era uma corrida contra o tempo. 

O estrago foi grande, tão grande que aprendi a dormir sentado no vazo sanitário. O vomito e a diarreia eram instantâneos. Mas tinha que ser forte, porque ninguém podia saber no trabalho. Caso contrário seria excluído do convívio dos colegas e demitido.  Tempos depois algumas leis foram criadas dando mais garantia e dignidade aos “pesteados” pelo vírus HIV. Soube de conhecidos que muitos morriam não pelo vírus, mas sim pelo veneno que ingeriam. Foi realmente uma fase muito difícil.

O Preconceito

“Não toque neste copo! Desinfete as tuas mãos”. Disse a mulher de um médico para a filha de 20 e poucos anos após pegar a louça que eu acabara de lavar.

“Se eu descobrisse ser aidético, me matava”. Frase dita pelo meu melhor amigo em um momento de desabafo.

“Meu filho morreu com esta doença maldita, e vocês são os responsáveis”. Disse a minha ex-sogra.
“Esses veados têm mais é que morrer tudo”. Esta frase já ouvi mais vezes que o próprio Hino Nacional. E, creia, ouvi há pouco tempo por uma pessoa letrada.

“Não, esse ai não, já pensou se alguém descobre que trabalho com um veado?! Já pensou se ele espalhar Aids para os colegas?!”. Disse um colega de trabalho durante uma seleção para preenchimento de uma nova vaga.

“Aidético é a parte podre da sociedade”. Disse um investigador de polícia quando eu estava prestando depoimento sobre um amigo que foi assassinado na porta do meu prédio.

“Eu poderia ter morrido. Ele podia ter me matado”. Disse um sujeito para um amigo em comum após se relacionar comigo.

Em função do preconceito, a maioria das pessoas preferiam morrer no anonimato, sem revelar que estavam doentes. O preconceito existe sim em todos os cantos, em alguns mascarados. Mas que existe, existe. 

Contar para a minha família foi uma tarefa difícil. Pensada durante muitos anos. Foram muitas lágrimas, muitas explicações, muitas acusações. Mas aconteceu. Hoje um alento! 

Dos meus amores depois do vírus 

Apesar da dificuldade de um relacionamento sério com um soropositivo, me considero uma pessoa virtuosa, pois já amei muito, já dividi muitos momentos e sempre com pessoas livres do vírus. Até parece irônico, não é? 

Fui contaminado por meu parceiro que não suportou a ideia de ter sido através dele meu contagio. Nunca o culpei, pois ele era inocente. Ele também foi uma vítima involuntária, mas a dificuldade com ele era justamente o risco eminente da morte. Ele tentava o suicídio o tempo todo.

Eu o amava, mas não suportava o peso da responsabilidade. Em outras palavras praticamente o devolvi para a família tempos depois. Ambos precisávamos de socorro. Logo depois um linfoma o levou para sempre. Na sua cremação, tocaram violão e cantaram Milton Nascimento. “Amigo é coisa pra se guardar...”. 

Dentre muitas relações amorosas, apareceu outro. Este me levou do céu ao inferno. Foram muitos anos onde eu sofria chantagens diárias. Qualquer coisa ele ameaçava contar para a família. Este tirava de mim além da dignidade, o meu dinheiro. Este faleceu há poucos anos.

Depois dele, tive outro casamento que durou aproximadamente 9 anos. Ele não era soropositivo. Quando contei, ele me abandonou. Sofri muito. Chorava a dor da saudade e do preconceito. Passou um tempo, e, em um final de tarde, eu estava trabalhando quando ele apareceu nervoso perguntando se podíamos conversar. “É claro que sim”, respondi. 

Acho que nosso casamento começou naquele dia, pois chorando ele me pediu perdão. A partir daí foram muitos anos de um casamento sólido, onde a única coisa que nos atrapalhava era a família dele que não nos aceitava. 

O que espero da vida

O que espero da vida? Simples, uma vida justa. Penso que a sociedade deveria refletir para não esquecer nunca que atrás de qualquer doença existe uma pessoa. Um ser humano que sofre, que tem desejos, sentimentos e ainda vive mesmo não sabendo quantos dias lhe restam”. 


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