Para curar, é preciso falar: conheça a rede de acolhimento para mulheres vítimas de violência em Chapecó

Chapecó possui rede de atendimento e acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica. No CREAS, mulheres recebem atendimento psicológico e social, para fortalecer a mente e o coração para encerrar o ciclo da violência

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Apesar de ser a mais visível, palpável e dolorosa, a violência física não é nem de longe o único tipo de violência sofrida por mulheres no contexto doméstico e familiar.


As cicatrizes provocadas pelo isolamento, agressões verbais e psicológicas sofridas ao longo de muitos anos são mais profundas e difíceis de curar. Esse é um, entre tantos motivos, pelo qual esse tipo de violência é tão difícil de superar.


Muito difícil? Sim! Impossível? Jamais! E para ajudar as mulheres e famílias que queiram quebrar o ciclo da violência, em Chapecó existe uma rede de acolhimento e atendimento para fortalecer a mente e o espírito dessas vítimas, para ajudar a recomeçar uma nova vida fortalecidas.

 

Rede de Acolhimento

 

A porta de entrada para o atendimento pode acontecer de formas variadas. A principal delas acontece pelo Judiciário, quando a polícia e a vítima pedem a medida protetiva. A psicóloga e coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) 2, Franciane Bortolli, explica que semanalmente a unidade recebe uma relação de medidas protetivas expedidas pela Justiça e iniciam o contato oferecendo o apoio e atendimentos na unidade.


Mas além da via judicial, Franciane reforça que as mulheres que sentirem que precisam de ajuda podem procurar espontaneamente os serviços, ou ainda serem encaminhadas por um dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) do município. Ao todo, sete CRAS estão espalhados por todas as regiões da cidade e fazem o acompanhamento de pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade ou risco social.


A Casa Abrigo de Mulheres Maria Maria também faz parte dessa rede de acolhimento e é destinada para mulheres que, por questões de segurança, não podem retornar para casa. Nela, as mulheres e os filhos podem permanecer o tempo que for necessário para que se reorganizem.


Durante a estadia, a equipe da casa também ajuda as mulheres a retomar o contato com a própria família – que muitas vezes se perde com o passar dos anos – e outros atendimentos que sejam necessários.


Os CREAS (a cidade possui 2) são os espaços especializados para atendimentos e encaminhamentos destas mulheres, também dos filhos e fazem o atendimento, inclusive, aos agressores que desejarem receber ajuda para compreender a violência e mudar esse comportamento.

 

Como são feitos os atendimentos?

 

O primeiro contato das mulheres com a equipe do CREAS é por meio de um grupo de orientação, onde elas recebem informações sobre os serviços oferecidos lá, formas de ajudar, atendimentos psicológicos, sociais e outros. A coordenadora reforça que a situação de cada mulher é analisada individualmente e ela, junto com a equipe, escolhem a melhor forma de trabalhar aquela situação.


Franciane explica que hoje existem dois tipos de grupos: o psicossocial, que é aberto e ocorre a cada 15 dias. “Usando temas disparadores do grupo, mas observando o perfil das mulheres e os interesses delas naquele momento”, explica.

Outro é o Grupo de Desenvolvimento Humano (GDH), que é fechado, com encontros semanais.


“Tem como objetivo falar sobre as vivências de violência, possibilita a reflexão das mulheres, para que pensem os padrões de vinculação com o agressor. Ele sempre é conduzido por psicólogo e assistente social, tem caráter mais terapêutico no sentido de promover mudanças”, diz.


Para as mulheres que desejarem atendimentos individuais, eles também são feitos. “No momento que elas chegam ao CREAS, que são acolhidas, ouvidas, é elaborado um Plano de Acompanhamento Familiar (PAF), onde é feito diagnóstico da família e plano de atendimento, para que posteriormente se possa encaminhar as intervenções e encaminhamentos necessários”.


A psicóloga detalha ainda que os filhos, quando expostos à violência, também recebem atendimento. “E também fazemos atendimento ao casal, porque às vezes a mulher não tem desejo de se separar e o homem está disposto a esse atendimento, então sempre realizamos o atendimento ao casal, havendo essa possibilidade”, explica.

 

Outros encaminhamentos

 

Além das atividades psicológicas e sociais, também é feito o encaminhamento das mulheres para atendimentos de saúde que sejam necessários, ou a retomada dos estudos – caso seja a vontade dela.


Todo trabalho do CREAS conta com apoio da rede de saúde do município (com CAPS, NASF) e também dos serviços de atendimento da Unoesc e da Unochapecó.


Se a mulher desejar, ela pode ser encaminhada para o Programa de Capacitação Profissional (PCP) – Trabalho e Cidadania, que tem como objetivo preparar as mulheres para ingressarem no mercado de trabalho formal. Para participar, elas precisam estar há mais de seis meses sem carteira assinada e morar há pelo menos 2 anos em Chapecó. “Muitas delas se empoderam muito a partir do trabalho”, conta.

 

Violência física é só a marca superficial

 

A psicóloga comenta que na maioria dos casos, a violência física é só uma ponta e que quando ela surge, na maioria das vezes houve violência psicológica antecedendo. Segundo ela, a violência física é a principal causa de procura nas DPCamis, mas que quando as vítimas começam a ser atendidas, outras violações são identificadas.


“A violência física deixa marcas e é reconhecida socialmente como violência. A psicológica começa de forma muito sutil. Algumas mulheres não consideram tanto quanto a violência física”, explica. Ela começa como ciúmes, proibição pequena de ver uma amiga, familiar, e aos poucos vai enfraquecendo a mulher, baixando autoestima, alterando-a emocionalmente, que ela se sinta fraca, inútil. “É pouco denunciada, mas sempre está presente. Quando há uma violência física, houve uma violência psicológica”, complementa.


Com o andamento dos encontros, são identificadas outras violências como a patrimonial, moral, sexual. “Mas a física é com certeza a mais denunciada”, enfatiza.

 

Violência sexual


Outro tipo de agressão identificado em alguns casos é a sexual. “Muitas vezes as mulheres nem entendem isso como violência, mas como uma obrigação por ela estar casada”, comenta, pontuando que muitas só se dão conta desta violência a partir da orientação.

 

Para curar é preciso falar

 

As feridas são profundas e falar pode reviver a dor e a tristeza da violência. Mas ele faz parte do processo de cura e fortalecimento, explica a psicóloga.


“Não dá para apagar a violência, mas temos que ensinar elas a lidarem com as emoções decorrentes da lembrança, para que entendam de que forma elas podem se relacionar novamente, como estabelecer uma relação saudável, uma comunicação assertiva e técnicas de resolução de conflitos. Isso não tem prazo, não tem fórmula, para cada mulher acontece de forma diferente”, diz. Nesse sentido, ela reforça o papel dos grupos de apoio, do compartilhamento das experiências das próprias mulheres umas com as outras.


“Estar no grupo fortalece muito, porque possibilita essa identificação de vivência, todas as mulheres passaram por situação muito parecida. A estratégia de uma pode ajudar a outra. O profissional tem capacidade técnica para mediar o grupo, mas ele não passou por situação de violência, então é por empatia do profissional. Mas no grupo são situações semelhantes e elas se fortalecem muito enquanto grupo, contribuindo para o crescimento da outra”, enfatiza.

 

Empoderamento

 

O objetivo de todos esses atendimentos é fortalecer a mulher, fazê-la conhecer seus direitos e entender quais tipos de comportamento são considerados violência. E, se for o desejo dela deixar aquele relacionamento, os profissionais a orientam sobre o divórcio, guarda dos filhos, pensão alimentícia e outros temas.

 

Violência tem perfil?

 

A violência doméstica não tem perfil, não tem idade, não tem classe social. A psicóloga conta que os atendimentos feitos pelo CREAS são disseminados por toda a cidade. A diferença, segundo ela, é que muitas vezes as mulheres jovens conseguem perceber e identificar essas violências mais cedo.  Mas que percebe o aumento na procura de mulheres mais velhas também. “Que estão há muitos anos casadas, que decidiram agora fazer a denúncia e por fim na violência. E eu acredito que isso é graças às campanhas de conscientização”, disse.

 

Onde encontrar?

Chapecó conta com dois CREAS, compostos por equipes com psicólogos, assistentes sociais, monitores sociais, coordenadores, auxiliares administrativos e assessores jurídicos.

CREAS 1: localizado na Rua Clevelândia, 540D, Bairro Jardim Itália. Telefone: 3319-1258

Atende moradores dos territórios do CRAS Efapi, Bormann, Efapi Céu e Seminário.

CREAS 2: Localizado na Rua Anselmo Santa Catarina, 697E, bairro Presidente Médici. O telefone é 3329-3572. Atende moradores dos territórios do CRAS Líder, São Pedro e Cristo Rei.

 

 


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