Rede Catarina ajuda mulheres a começarem um novo caminho longe da violência

Neste mês, o projeto Rede Catarina completou três anos de atuação em Chapecó. Em 36 meses, mais de 1,5 mil mulheres receberam a ajuda, orientação e o carinho dos policiais em um momento difícil, em que a coragem e a força diária são fundamentais para retomar o controle da própria vida

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Bia Piva

bia@diariodoiguacu.com.br

Chapecó 


A chegada é cheia de sorrisos e abraços, como se o encontro fosse de velhos conhecidos. “São meus anjos”, diz a moradora da casa, se referindo aos policiais Juarez Siqueira e Dayse Mascarello, da guarnição do projeto Rede Catarina da Polícia Militar de Chapecó, que há três anos faz o acompanhamento e dá segurança às mulheres vítimas de violência doméstica e que tem medidas protetivas contra os agressores.


Quem vê a felicidade do encontro, acompanhado pelo Diário do Iguaçu no mês de outubro, não imagina que a primeira vez que ele aconteceu foi em meio a uma situação de medo e violência. O primeiro dos anjos que chegou na vida desta mulher de 26 anos – que preservaremos o nome – foi o soldado Siqueira.


Foi em 2018, depois que a jovem voltou a morar na casa dos pais, ao dar fim a um relacionamento de 10 anos marcado pelo aprisionamento e violências verbais e psicológicas. Quando tomou coragem, pegou a filha, apenas as roupas das duas e deixou para trás o ex-companheiro.


“Ele não aceitava. E passava todo dia na frente da casa dos meus pais mostrando faca, arma, fazendo ameaças. Foram quase dois anos assim. Quando eu estava em casa, eu não podia ficar na varanda, tinha que ficar escondida dentro de casa. Quando eu saía para trabalhar, andava sempre com medo porque não sabia o que ele ia fazer. Então, eu continuava vivendo presa”, conta.

 

A força para ajudar na mudança de vida

 

E foram várias ameaças, discussões, até que ela tomou coragem e pediu ajuda para a PM. O soldado Siqueira conta que naquela época, não fazia parte do Rede Catarina, mas estava na guarnição da área que atendeu a ocorrência. Foi ele quem orientou e encorajou a jovem a registrar as ameaças e fazer o pedido de medida protetiva.


“Eu pensei: se eu não registrar, ele pode vir e me matar. Se eu registrar, ele pode fazer isso também, mas eu procurei ajuda e as pessoas vão saber. Mas se eu não fizesse nada, ia ficar cada vez mais sozinha e isolada e ele ia se fortalecer com isso”, lembra. E foi essa coragem o determinante para a mudança de vida que viria depois. E nessa hora que entrou o outro anjo: a soldado Dayse.

“Logo que eu recebi a medida, ela entrou em contato por whatsapp comigo. E toda vez que eu tinha uma dúvida, medo, sentia alguma angústia eu chamava ela”, conta.


Esse foi o primeiro passo de uma longa jornada de cura que ainda está em progresso. “Eu tenho o acompanhamento do CREAS, participo dos encontros com a psicóloga. Eu não tenho vergonha de dizer que eu preciso de ajuda. E isso me fortalece. Eu vejo que muitas mulheres do grupo que eu vou acabam não participando, deixam de ir com a psicóloga. Mas eu posso dizer, da minha experiência, o quanto isso me ajuda e me faz bem”, agradece.

 

Força para ajudar outras vítimas

 

Para os policiais, a história da jovem – que hoje não está mais entre as protegidas – é um exemplo de superação e coragem. “A história dela é muito bonita. E a gente tem essa mesma conversa com todas as nossas protegidas. Só que muitas preferem não prosseguir, retirar a medida, acreditar que vai mudar. E aí já não cabe a nós interferir no seio familiar. Nós damos as diretrizes, nos colocamos à disposição para qualquer encaminhamento, fazemos o que precisar. O programa é parte de uma mudança muito maior”, ressalta Siqueira.


E se a adolescência e início da vida adulta foram marcados pela violência, angústia e por uma maturidade forçada àquela menina de apenas 13 anos, hoje o futuro é recheado de planos e o presente de ações. O apoio do Rede Catarina foi tão importante na vida dela, que ela achou que poderia ajudar outras mulheres compartilhando o trabalho dos policiais onde ela trabalha.


“Eu conversei com meus chefes, falei do projeto e se eles poderiam dar uma palestra onde eu trabalho e falar sobre violência. Eles aceitaram na hora, organizamos a palestra e os policiais foram lá. Muitos colegas tinham dúvidas e fizeram várias perguntas. Se eu recebi ajuda e foi muito bom para mim, eu queria que outras mulheres soubessem que podem contar com isso”, conta.

 

E o futuro?


Ao lado da filha e do atual companheiro, o futuro é recheado de planos. “Vou apurar para me formar e quem sabe ainda consigo entrar para a polícia”, revela, recebendo os sorrisos de alegria dos anjos policiais e, quem sabe, futuros colegas de farda.


Mas se o caminho não for a polícia, a jovem tem certeza que é seguir ajudando outras mulheres. “Seja em um CRAS, Creas, orientando essas mulheres e crianças. Retribuir a ajuda que eu ainda recebo hoje”, diz.


A essa altura, a conversa da corajosa mulher com o Diário do Iguaçu era acompanhada com um chimarrão e pipoca, e a chuva que caia fora da casa veio junto com algumas lágrimas trazidas pelas lembranças ruins... Mas é no amor à vida, à filha e o desejo de ajudar outras pessoas que ela encontrou a força para retomar as rédeas da própria vida.

 

Rede Catarina completa 3 anos

 

No dia 4 de novembro de 2016, a Polícia Militar de Chapecó deu início a um projeto pioneiro e que ao longo destes três anos faz a diferença na vida de muitas outras mulheres da cidade. O resultado foi tão positivo, que o projeto hoje é replicado por várias cidades catarinenses e modelo até para outros estados.


A soldado Dayse conta que desde o início das ações, mais de 1,5 mil mulheres já foram atendidas pelo programa, orientadas e protegidas pela equipe dedicada exclusivamente a monitorar e dar apoio às vítimas de violência doméstica.


Nestes anos, várias mudanças na legislação foram realizadas e ajudaram a dar mais efetividade às medidas e, por consequência, segurança às mulheres. Entre elas, Dayse e Siqueira destacam que desde 2019, o descumprimento de medidas protetivas se tornou crime, passível de prisão em flagrante e sem possibilidade de fiança ser arbitrada pelo delegado de Polícia Civil. Ou seja, em caso de descumprimento e prisão, o suspeito deverá passar por audiência de custódia diretamente com o juiz que vai avaliar se a prisão será mantida ou não.


Outra mudança é a nível municipal e iniciou em julho deste ano. A partir do dia 1º de julho, a Justiça de Chapecó passou a inserir nas medidas protetivas que o agressor deverá passar por reuniões junto com a Polícia Militar.

“Primeiro para quê? Para ele saber que tem a medida protetiva e que se ele descumprir pode ir preso. Ele não é obrigado a comparecer, não tem nenhuma lei, nenhuma jurisprudência que obrigue, mas o simples fato de que está ali escrito que tem que ir, eles estão indo”, comentam os policiais.


Em pouco mais de quatro meses, mais de 200 homens já participaram das atividades, recebendo orientações dos policiais e também de profissionais da assistência social e direito. “Desde que eles estão indo, diminuiu significativamente as ocorrências de descumprimento das medidas destes homens que são atendidos por nós”, comenta Dayse.


Segundo eles, a maioria dos agressores acredita que o fato de xingar, denegrir a imagem das vítimas não é violência. “Eles acham que a violência doméstica é a violência física”. E nesses encontros eles recebem orientações, falam sobre a situação que motivou a medida, e falam sobre as consequências de descumprir a ordem judicial.


“Tem muitos que ligam para a vítima exigindo que elas tirem a queixa porque vão perder o emprego, que isso vai implicar ele. E a gente explica que se ele descumprir a medida é que a vida dele vai se complicar. Porque se ele respeita a medida, cumprir uma ordem, tudo vai dar certo. Mas a partir do momento que ele descumprir a determinação do juiz é que ele vai se complicar”, enfatiza a policial. A equipe auxilia ainda a atender questões como visita aos filhos e outras situações envolvendo a família.


Mensagens com ameaças à vítima também contam como descumprimento. “Teve casos que a gente pegou a protegida, colocamos na viatura e rumamos para a DPCami conversar com o delegado, mostrar a situação”, conta Siqueira.

 


Ex-companheiros são principais agressores

 

Conforme dados apurados pela equipe do Rede Catarina de Chapecó, até o mês de setembro, os ex-companheiros e ex-maridos são os principais agressores das mulheres protegidas pelo programa. Os ex-companheiros são responsáveis por 35,8% das agressões, seguidos por ex-maridos, com 28,4%. Ex-namorados aparecem em 10,4% dos casos e maridos em 6,7%

 

Escolaridade e profissão das vítimas

 

Já em relação ao nível de escolaridade, a maioria das mulheres, 30,6%, tem ensino fundamental incompleto. Com ensino médio completo são 23,1% das vítimas e ensino médio incompleto são 14,2%. Mulheres com superior incompleto são 8,2% das vítimas, superior completo são 9,7% e pós-graduadas 0,7%. Esses dados são referentes às mulheres atendidas pelo projeto.


No aspecto da profissão, são áreas variadas. A maioria das vítimas, cerca de 20%, são de donas de casa. Depois aparecem profissionais como técnicas de enfermagem (2,2%), vigilantes (1,5%), serviços-gerais (6%), secretárias (3%), professoras (3,7%), estudantes (5,2%), empregadas domésticas (6,7%), aposentadas (6%), auxiliar administrativo (5,2%), bancária (2,2), comerciante (2,2%), desempregada (3,7).

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